Assustadora é a opressão em que a gente vive.

Costumamos chamar de assustador tudo aquilo que nos causa medo ou espanto. E é de praxe que, no que tange à Literatura, a gente atribua aos contos de horror ou de suspense tal denominação.

Devo admitir que sou fã de contos de horror. Mas o livro de hoje, prosseguindo com o meme 1 mês, 30 livros, em nada lembra estes contos. Seus personagens não são vampiros, zumbis ou bruxas. E seu cenário não remete a um cemitério ou a um palácio mal-assombrado… O livro de hoje mostra a realidade que pode, muitas vezes, ser bem mais horripilante que a ficção.

Dia 8 – O livro mais assustador que já li

Quem já leu O Mito da Beleza, de Naomi Wolf entenderá perfeitamente do que estou falando. É um livro bastante revelador, que demonstra como a construção de estereótipos e de paradigmas inatingíveis de beleza atinge as mulheres e como isto contribui para que elas não busquem os seus objetivos. Ou a sua felicidade.

Naomi explica como mecanismos de manipulação aparentemente inofensivos fazem com que várias mulheres não se sintam totalmente livres, pois a busca constante pela beleza se revela como um meio de coerção social altamente opressor.  E segundo ela, a ideia de beleza e de juventude “eternas” exerce a mesma função que as concepções de domesticidade, de maternidade e de delicadeza, (compreendidas como atributos mais importantes para o sexo feminino) já não são mais capazes de desempenhar em tempos atuais.

Mas por que considero O Mito da Beleza  tão assustador? A resposta é bastante simples. Que mulher que nunca se sentiu mal por não corresponder a um determinado padrão de beleza?  Quantas revistas sobre dieta, cabelos, corpo e moda são destinadas exclusivamente às mulheres? Quando ligamos a TV, vemos quantas mulheres seminuas, com corpos esculturais? E quando há alguma reportagem ou homenagem a alguma profissional consagrada, qual a primeira coisa que é mencionada em relação a ela? Sua competência, ou a sua beleza?

Todas estas questões quase sempre não são amplamente debatidas por nós. É que é algo que vemos tanto, com o qual estamos tão acostumad@s que acabamos por acreditar que tal condição é natural. E essa aparente naturalidade nos torna passiv@s diante dos fatos. Fatos que tanto nos oprimem.

Ler este livro me assustou justamente por isso, porque fez com que eu passasse a compreender como quase tudo que pensei ou desejei era, na verdade, fruto de uma manipulação massiva e muito bem sucedida, que tem total respaldo da nossa sociedade capitalista e patriarcal. O Mito da Beleza é imprescindível para todos que querem compreender os mecanismos (quase sempre mascarados) que permeiam as informações que   recebemos, aquilo que queremos e até mesmo os nossos gostos ou escolhas.

Naomi Wolf, sob sua ótica feminista, deixa bem claro neste livro que o “arquétipo” da modelo esquálida e alta tomou o lugar do da dona de casa feliz e realizada.  E este atualmente se configura como uma espécie de “ideal” que toda mulher deve almejar, por mais bem sucedida ou independente que seja. Ideal que, tal qual o da maternidade/casamento, seria fundamental para que ela se sinta completa.

O Mito da Beleza é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores livros que já li. E para finalizar, segue um pequeno trecho, como uma prévia de uma obra que certamente abriu e abrirá muitos olhos. Muitas mentes. Mesmo que seja tão assustador. E se posso dizer, não é o livro que é assustador…  Assustadora é a forma como tanta coisa é manipulada para nos alienar:

“A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer, sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino. Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo as quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram.”

                                                                                             [Naomi Wolf. O Mito da Beleza, pg 11]

**P. S. Estão curtindo o desafio? Pois então confiram também as participações da Luciana, da Niara, da Renata, da Marília,  da Mayara, da Grazi, da Rita e da Tina, blogueiras queridas e sempre inspiradoras 😉

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Sobre Cláudia Gavenas

Paulistana, 26. Designer, gateira, feminista e musical. Meio perdida na vida, mas não tem certeza se realmente quer se encontrar...
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3 respostas para Assustadora é a opressão em que a gente vive.

  1. Márcia disse:

    Concordo com tudo que disse no texto. Hoje em dia só se fala de beleza, a manipulação “come” solta, as pessoas esquecem de viver para viver a beleza do outro e ou tentar entrar no padrão estabelecido pelas mídias e pelas pessoas sem conteúdo.
    Também concordo com Naiara, a beleza só conhecemos a partir de atitudes de cada um. Pois cada pessoa transmite uma beleza diferente,

  2. O mito da beleza é tão introjetado quanto o próprio machismo, ao ponto das mulheres sentirem culpa por não estarem dentro dos limites aceitos do padrão. Costumo dizer que ninguém é feio ou bonito a priori (e sorte que vivemos após Immanuel Kant e podemos cada um ter opinião sobre o que achamos belo), as pessoas ficam feias e bonitas conforme vamos conhecendo, vendo suas atitudes. Mas o mito da beleza sobre as mulheres é reducionista. Terrível isso. Estás certa, Cláudia. Beijo! 😉

    • Cláudia disse:

      Obrigada pela contribuição, Niara! E compartilho da idéia de que as pessoas podem ficar “feias” ou bonitas” conforme conhecemos. Grande abraço!

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